sábado, 24 de janeiro de 2009

Hoffmann, retrato pt.1

A primeira coisa que observei no Sr. Hoffmann, quando o conheci, há sete ou oito anos (atrás, diz-se agora), foi que não tinha olhos. Estavam lá, por trás dos óculos de aros de ouro (agora são de um metal cinzento baço - titânio?), mas não eram olhos humanos: eram duas minúsculas continhas encarnadas, olhos de bicho, olhos de aranha... Ainda hoje, depois de centenas de horas de facetime, de tête-à-tête, depois de mil briefings de inenarrável seca, não sei de que cor são. Sei que não são encarnados (há quem jure que são esverdeados, quem saiba de fonte segura que são azuis...). Eppure...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Santa Clara a quem gratamente dedico "Legs" da PJ Harvey. That's Polly Jean for those of you out there that didn't know. Clara, you're divine.
Para aqui estou, abandonado como um náufrago on the desert shores of the whole wide world, e não há sequer uma garrafita stranded com uma mensagem de encorajamento. Mundo cruel. Um filme australiano de orçamento zero aborda exemplarmente esta problemática estruturante - fracturante: the quiet earth... Valha-me santa Clara.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O que é que o Miguel gosta de fazeârr mais? O que é que le dá o mais de prrazeârr?’ O Sr. Hoffmann estava à espera do elevador e eu acabava de passar por ele, depois de um interminável e esgotante dia de trabalho perfeitamente inútil, a caminho das escadas e de casa; a pergunta apanhou-me pelas costas... O elevador parou com um solavanco; a lâmpada do corredor apagou-se. Ir ao cinema, ouvir música, ler, sair com os amigos, passear... (Bem-vindo a ‘O Preço certo em Euros’; venha jogar!). A luz do outro elevador, que passava, cheio de gente feliz, alheia ao drama, percorreu-o de alto a baixo; vi os olhos dele nos meus... Lembrei-me da palavra alemã para elevador: ‘fahrstuhl’: ‘cadeira de viagem’. Estar fechado em casa, pesar cada grama do que como, ver televisão, falar sozinho, procurar os sinais mais óbvios da minha óbvia demência... Mais alguns segundos... Ele saboreava o meu embaraço... O seu hálito tinha deslizado como uma cobra pela penumbra e pelo silêncio até mim. O cheiro a alho era insuportável... As escadas estavam a um passo, ao fundo delas a liberdade. Passou-me pela cabeça fugir, simplesmente, largar ali o Sr. Hoffmann e os seus tormentos, mas contive o impulso. Tinha de dizer qualquer coisa… ‘Fumar’ foi o que me saiu; ‘Gosto de fumar’... Ele abriu a porta do elevador. ‘Então egzperrimente scrreveârr um tecst sobrre a voluptade do fumo, sobrre o prrazeârr que o fumo lhe dá... Vai veârr que é um ecselente egzercice’. A porta do elevador fechou-se, a luz do tecto acendeu-se, apagando o sorriso que ele deixara a pairar no escuro...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E como a good turn deserves another, deixo aqui a ilustração visual e sonora do meu maior pesadelo - o de acordar um dia transformado num fat little insect... uma barata, por exemplo. Hideous to the eye, eis Nick, the stripper
This is heavy stuff, man! Julguei que ia ser um cena mais light, tás a ver, mais jovem! E se ouvíssemos um pouco de NAPALM DEATH (I Love the sound of napalm in the morning... It sounds like victory). Sugiro, porque é light, como título, "From enslavement to obliteration" de (para aí) 1988. A canção do dia é "Evolved as one" (uma espécie de "Ebony and Ivory" para culturistas), e é boa para criar uma atmosfera descontraída em que o alinhamento dos chakras e o o retoque das auras se façam de modo natural e fluido...

hard times

São seis da manhã em Lisboa. Na canção do John Cale, in hawaii only ten a.m. In hawaii, onde nasceu o Barack Obama, ontem embuçado como homem mais poderoso do mundo. Enquanto ele punha a mão sobre a bíblia do Lincoln, eu puxava do meu primeiro cigarro desde o dia 14 de janeiro. Enquanto ele e o planeta diziam que iam conseguir, eu dizia "No I can't". A minha guerra dos seis dias chegou ao fim, i'm not the last man standing. Mas às seis da manhã em lisboa, tenho a sensação de que sou o primeiro ser humano a emergir do sonho para o mundo que espera pelo D. Sebastião do Illinois. Como o Mulder, I want to believe. Mas sei que não posso voltar a pôr o fumo dentro do cigarro. Pergunto-me se não será tarde demais para happy endings.