sábado, 14 de fevereiro de 2009
Fever
Acabo de descobrir, folheando bocejante o bocejante “Actual” do Expresso (o caderno formerly known as “Cartaz”), que morreu (com a inverosímil idade de 62 anos) o grande Lux Interior, vocalista (ou cantor, para quem tenha, como eu, uma noção ampla, amplíssima, do conceito de “cantar”) dos Cramps. Estilisticamente, acaba de me dizer a wikipedia, os Cramps faziam (frequentemente em simultâneo e delirante caos) garage punk, punk, trash rock, rockabilly e, acima de tudo, psychobilly (“Psychobilly is a genre of rock music that mixes elements of punk rock, rockabilly, and other genres. It is often characterized by lyrical references to science fiction, horror and exploitation films, violence, lurid sexuality, and other topics generally considered taboo, though often presented in a comedic or tongue-in-cheek fashion”, informa a wikipedia ), o estilo em que mais longe o seu génio (essencialmente o do grande Lux) atingiu o zénite. Tenho meia-dúzia de álbuns deles (incluindo um par de compilações), material mais que suficiente para conhecer o melhor do muito (muitíssimo – mais prolíficos, ou mais prolixos, só para aí os Fall) que produziram ao longo de uma carreira (termo a tomar também na mais vasta das acepções) de mais de trinta anos. Socorrendo-me da definição de “psychobilly”que há pouco surripiei, é-me fácil demonstrar como se lhe adequa o corpus crampi – “My Daddy Drives a UFO” (sci-fi); “Human Fly”; “I Was a Teenage Werewolf”; “Zombie Dance” (horror); “Can Your Pussy Do the Dog”; “You’ve Got Good Taste”; “Hot Pool of Womanneed” (exploitation, violence, lurid sexuality). De “other topics considered taboo” também não há escassez no cânone crâmpico, desde o canibalismo à coprofagia, do incesto ao parricídio. Em boa verdade, o tabu era o território deles. E se também é verdade da boa que o seu viscoso rasto pelos domínios do interdito tresandava a gozo, não o é menos que, no seu melhor (1979 – 1983), sob o riso e as piadas de quase sempre péssimo gosto, havia uma corrente muito forte e perturbadora de ameaça, medo e demência que os aproximava muito mais dos Birthday Party/early Nick Cave (ou, mais recentes, os Gallon Drunk) que de palhaços como os Reverend Horton Heat ou Zombina and the Skeletones (to name but two, que a lista de assholes whose dream is to be the next Cramps é infindável). And man, could they rock! Não que soubessem tocar (ou cantar, como deve ter ficado claro); a risível incompetência técnica,o absoluto desconhecimento dos instrumentos, o total desprezo pelas noções de harmonia, ritmo, melodia, tom ou quaisquer outras que integrem o mais rudimentar currículo conservatorial, pelo menos nos primeiros anos, eram não só mais que manifestos, como também – nesse aspecto, de acordo com a mais rigorista ética garage-trash-punk – orgulhosamente ostentados. That was not the point. E qual era o point? Bom, antes de mais, sexo, em doses maciças, cavalares, exposto de modo insuperavelmente boçal e grosseiro, sob todas as formas e em todas as configurações – da punheta ao sadomasoquismo à orgia the-more-the-merrier; depois, a celebração do amor ilimitado e genuíno pela trash-culture americana – dos hambúrgueres e drive-ins, carros com barbatanas e gajas com mamas enormes, aos filmes sub-série-Z, literatura pulp, revistas porno, freak e peepshows… enfim, se era inteiramente alheio à mais remota ideia de bom-gosto, bom-senso, inteligência, relevância social ou política; se suava, arfava, fumegava, fodia, fedia, desgostava, escandalizava, repugnava ou induzia vómitos, então era temática do domínio da crampologia. Eram os John Waters do rock (com a diferença de que o John Waters sucks – cock and gas). Eram também um dos melhores grupos da história do rock: três das suas “canções” originais estão entre as mais fenomenais que alguma vez ouvi ou ouvirei: TV Set, Garbageman, Thee Most Exalted Potentate of Love – e isto significa que as ponho a par do que de melhor fizeram os velvet Underground, os Joy Division ou os Sonic Youth. E depois, há as versões – Strychnine, Tear It Up, Fever, superiores a todas as outras que conheço (incluindo o Fever clássico da Peggy Lee – that’s how good they were). A partir de 1983 (ano do Smell of Female, ao vivo, fabuloso, e do Off the Bone – compilação com o absolute best, para quem ache que one dose of the cramps is enough), as coisas entraram na rotina. O Date With Elvis ainda quase makes the grade, mas o resto (ainda que invariavelmente haja uma ou outra jóia entre o pechisbeque) é refugo, feito para pagar o spandex, as tintas para o cabelo e o verniz para as unhas, alguma comida e quantidades industriais de droga. O bom do Lux não deixou um cadáver bonito, mas só porque não morreu novo (os Cramps clássicos tinham todos, senão beleza – estou a pensar no Bryan Gregory e no Nick Knox –, certamente sub-z-movie star looks, no caso do vocalista tema deste texto já longo; quanto à guitarist-cum-dominatrix Poison Ivy, era simplesmente de pasmo), e não morreu novo porque nada é mais americanamente trashy que uma puta gasta e desbocada. Possa a tua alma, Lux, contorcer-se eternamente de prazer nas chamas do Inferno.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Lebowski
Tenho em casa, desde há duas semanas, uma impressora. É um belo objecto (um paralelepípedo quase cúbico) em plástico negro mate que, como o tapete do Lebowski, really ties the room together. Estou muito satisfeito com a aquisição: não só custou (instalação incluída) uns míseros/meros 150 euros, como, tendo eu dispensado a emissão da correspondente factura, fiquei em contrapartida dispensado de esportular outros 30, correspondentes ao que julgo ser um imposto chamado IVA. A “máquina”, como o gajo que ma instalou insistia em chamá-la, é a laser, e imprime fotografias com excelente qualidade. Só ainda não percebi bem para que me vai servir. Já fiz, a pedido da minha Mutti (os seus desejos são ordens), algumas cópias de fotos da minha sobrinha Mariana. A crítica foi unanimemente elogiosa. Já imprimi uma lista de livros que tenciono (money and time permitting), respectivamente comprar e ler. Devo ter imprimido umas dez páginas, no total. Não levando em linha de conta o custo do papel, cada página custou-me até agora 15 euros. Sou um teso que não tem onde cair morto: 15 euros por página is a little too rich for my blood. Por isso, ontem, lembrei-me de que poderia tentar começar a amortizar a máquina com a impressão de pornografia. Imagens de gajas boas, na Internet, não faltam. Da resma de folhas que tenho em casa (uma resma = 480 folhas) sobram-me ainda 470. São muitas gajas boas, muitas punhetas potenciais à espera de implementação. O problema está nas fotografias que encontro. A primeira candidata de que me lembrei foi a Jessica Biel. É uma artista de grande talento, e gosto muito de vê-la trabalhar. Escrevendo “jessica biel” no google imagens, não é preciso ir além da primeira fornada para encontrar pano para muitas mangas... But there’s (pun intended) a rub: impressas as fotos, criado um ambiente de trabalho ergonomicamente adequado (um panóptico, digamos), esbarro na dúvida tremenda: porque é que uma rapariga assim haveria de contorcer-se langorosamente com os olhos cintilantes de desejo pousados em mim? A inteligência ou o bom-senso (you choose which) dizem-me que as probabilidades de isso alguma vez acontecer são ténues, senão ínfimas. Ain’t gonna happen. E a punhetinha tão ansiada não chega a ser implementada. E não adianta alterar os parâmetros da procura: brancos e negros, os corpos que vêm dar à minha costa (por razões misteriosas, os fotógrafos têm uma marcada preferência por praias) são invariavelmente perfeitos, luzidios de água salgada e óleos perfumados, coleantes em marés baixas, reclinados sobre rochas quentes e polidas; nos rostos de impossível simetria, o desejo é murmurado por lábios entreabertos mostrando dentes de impecável brancura, o prazer prometido por olhos semicerrados no antegozo de longos enlaces que só orgasmos de perfeita sincronia quebrarão. Deslocado, só poor old me. É a maldição do masturbador inteligente... Vou ter de ficar à espera que algum nerd inspirado crie o site plausibleporn.com. Já gostei mais do paralelepípedo quase cúbico negro mate que really ties my room together...
sábado, 7 de fevereiro de 2009
O Aviador
O “piloto do Hudson” – o herói que conseguiu pousar o seu avião nas águas do rio Hudson, salvando assim 150 pessoas de um destino pior que a morte, não desaparece das manchetes da imprensa americana:
“Weeks after starring in his own story of bravery and heroism, the pilot who safely ditched his jetliner in the Hudson River received a standing ovation Saturday from the audience at a Broadway performance of “South Pacific”.
At the end of the classic revival, the show’s stars introduced Capt. Chesley “Sully” Sullenberger as the pilot who set down the disabled plane within reach of rescue boats last month, saving the lives of all 155 people. A spotlight was trained on Sullenberger in the audience, and the crowd stood, cheered and applauded. The pilot’s wife, Lorrie Sullenberger, began wiping tears from her face. He hugged her, then turned back to the crowd and waved as the cheers grew still louder. The 58-year-old pilot, his wife and their two daughters went backstage after the show and met the cast of the Rodgers and Hammerstein musical, which tells of the romances and heroics of a group of American aviators, nurses and sailors stationed far from home during World War II.
It was an appropriate choice for Sullenberger, who was named best aviator in his Air Force Academy class and served in the military from 1973 to 1980. He flew F-4 Phantom II fighter planes and served as a flight leader in Europe and the Pacific.”
Eu, se fosse o Sully, tinha cuidado. Tanto interesse na sua vida, na sua família, na sua carreira... Tantos jornalistas a “investigarem”, tantos amigos e conhecidos a “testemunharem”... Não hão-de tardar a biografia autorizada, o movie of the week, talvez o blockbuster com o Harrison Ford (que já pilotou o Air Force 1) aos comandos... 58 anos, ainda casado com a noiva original, duas filhas, uma folha de serviços militar que não se limita a ser sem reparo, e um registo na aviação civil agora coroado com uma arriagem perfeita... Ó Sully, quem julgas tu que enganas? Eras o melhor pilotinho da academia e gostas de musicals? Tens duas filhas? De qual gostas mais? E a tua Lorrie, aposto que a chorar está ela habituada... Já agora, tens-te lembrado de declarar os teus rendimentos? Seriamente, já há-de haver quem se pergunte se alguém pode ser imaculado. Nascido por volta de 1950, o nosso Sully tinha 30 anos quando pegou nos comandos de um avião de passageiros: hospedeiras e aviadores, mile-high club... Não há um marido ou colega ciumento, uma co-worker despeitada ou traumatizada por assédios importunos? Para onde voou o Sully? Paraísos fiscais nas Caraíbas, ou então Colômbia, Bolívia, México? O mundo gosta de heróis, mas o que saboreia realmente é o espectáculo que dão quando estão tombados na sarjeta. Até o nome “sully – to make soiled or tarnished, to defile”, prenuncia a queda... Não dou ao herói do Hudson mais que uns meses até a lama começar a salpicar-lhe o nome; ainda o verei – e não sentirei senão pena, enquanto murmuro “I told you so”, claro – a pedir desculpa ao mundo por não ser perfeito...
“Weeks after starring in his own story of bravery and heroism, the pilot who safely ditched his jetliner in the Hudson River received a standing ovation Saturday from the audience at a Broadway performance of “South Pacific”.
At the end of the classic revival, the show’s stars introduced Capt. Chesley “Sully” Sullenberger as the pilot who set down the disabled plane within reach of rescue boats last month, saving the lives of all 155 people. A spotlight was trained on Sullenberger in the audience, and the crowd stood, cheered and applauded. The pilot’s wife, Lorrie Sullenberger, began wiping tears from her face. He hugged her, then turned back to the crowd and waved as the cheers grew still louder. The 58-year-old pilot, his wife and their two daughters went backstage after the show and met the cast of the Rodgers and Hammerstein musical, which tells of the romances and heroics of a group of American aviators, nurses and sailors stationed far from home during World War II.
It was an appropriate choice for Sullenberger, who was named best aviator in his Air Force Academy class and served in the military from 1973 to 1980. He flew F-4 Phantom II fighter planes and served as a flight leader in Europe and the Pacific.”
Eu, se fosse o Sully, tinha cuidado. Tanto interesse na sua vida, na sua família, na sua carreira... Tantos jornalistas a “investigarem”, tantos amigos e conhecidos a “testemunharem”... Não hão-de tardar a biografia autorizada, o movie of the week, talvez o blockbuster com o Harrison Ford (que já pilotou o Air Force 1) aos comandos... 58 anos, ainda casado com a noiva original, duas filhas, uma folha de serviços militar que não se limita a ser sem reparo, e um registo na aviação civil agora coroado com uma arriagem perfeita... Ó Sully, quem julgas tu que enganas? Eras o melhor pilotinho da academia e gostas de musicals? Tens duas filhas? De qual gostas mais? E a tua Lorrie, aposto que a chorar está ela habituada... Já agora, tens-te lembrado de declarar os teus rendimentos? Seriamente, já há-de haver quem se pergunte se alguém pode ser imaculado. Nascido por volta de 1950, o nosso Sully tinha 30 anos quando pegou nos comandos de um avião de passageiros: hospedeiras e aviadores, mile-high club... Não há um marido ou colega ciumento, uma co-worker despeitada ou traumatizada por assédios importunos? Para onde voou o Sully? Paraísos fiscais nas Caraíbas, ou então Colômbia, Bolívia, México? O mundo gosta de heróis, mas o que saboreia realmente é o espectáculo que dão quando estão tombados na sarjeta. Até o nome “sully – to make soiled or tarnished, to defile”, prenuncia a queda... Não dou ao herói do Hudson mais que uns meses até a lama começar a salpicar-lhe o nome; ainda o verei – e não sentirei senão pena, enquanto murmuro “I told you so”, claro – a pedir desculpa ao mundo por não ser perfeito...
Yerself is steam
Bem sei que ninguém quer saber, mas pu-la aqui na mesma. O grupo – a banda – dava pelo nome de Mercury Rev (um foguetão Mercury em pleno lift-off, ou então um motor fora-de-borda Mercury em plena aceleração... whatever). Words fail me. Estar à beira-mar em Phuket a ver a rebentação no dia 26 de Dezembro de dois mil e não sei quantos deve ter sido parecido. Listen at your peril. A ideia veio-me do blast from the past com que começou hoje o meu dia – um friend request de uma rapariga que não vejo há dez anos mas que nunca pude esquecer (o adjectivo “unforgettable” foi criado with her in mind). It’s not time for these fears of mine, e depois o mundo explode, e quem não sentir um arrepio na espinha e um desejo irresistível de se lançar para o mosh pit não tem alma... Em toda a sua incandescente glória, lovingly dedicated to Barbara, eis “Chasing a Bee”.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Todos os nomes
Uma coisa que eu acho que é importante e não está bem é os nomes. Há montes de pessoas que os nomes são iguais. Só Anas e Sandras conheço eu para para cima de umas vinte, Anas Margaridas, Anas Cristinas, Anas Marias (e Sandras igual). Só aqui no trabalho hão-de haver algumas seis ou sete Anas. Quer dizer, se fizessem um filme só devia de ter uma Ana e uma Sandra; se houvesse duas que o nome fosse igual, era logo vai haver uma confusão qualquer com estas gajas. Eu sou Rui Fernando, mas toda a gente me chama Nando, fora no trabalho, que sou Rui. Da família, só a minha esposa é que não, é mesmo Fernando e não gosta nem um bocadinho de Nando. E um amigo meu que é Luís e a mãe e a irmã mais nova são as duas Idalina, e a irmã mais velha é Deolinda e tem uma filha que é a sobrinha dele e também é Idalina e o filho, que eu fui o padrinho, também é Rui. Tenho outro amigo meu, que é o Paulo, que antes de se casar com uma que é Carla, teve namoro com três que eram todas Carla. E por aí afora. Nos filmes não é assim e nos livros também não pode ser, porque senão ninguém percebia nada. Tem-se que mudar os nomes, senão é uma confusão. Outra coisa importante é os palavrões. O meu pai era humilde, mas não gostava de palavrões, e a minha velha então, alto lá, quando eu alçava a grimpa era logo. O meu pai nunca me levantou a mão mas também não era preciso, mas digo palavrões. Quando comecei aqui no trabalho, as pessoas só diziam palavrões quando estavam só gajos, ou só gajas, por exemplo, ou então em Inglês (eu falo um bocadinho). Eu dei a volta a isso, tipo tudo a tomar café no primeiro andar (que depois acabou, porque o patrão afinava, mas também não se podia fumar, portanto por mim...) e eu vá de contar uma anedota mais pró picante, mas sem exagerar demais, só na reinação que eu não gosto de ofender ninguém. E os outros era logo a avacalhar. Mas voltando aos palavrões é mesmo assim que as pessoas falam (e o patrão tenho a certeza que é igual, só que à nossa frente é que não). Se o Miguel Esteves Cardoso, que tem estudos (eu não tenho derivado que tive de começar a trabalhar quando o meu pai faleceu, mas a quase que acabei o liceu) pode fazer um livro que é O Amor é Fodido eu também posso mandar umas bojardas. E em relação às gajas igual e aos paneleiros e aos pretos. Há um no DN que é o Manuel Ribeiro que é só cartas de gajas a dizer mal, mas gostam e, as que dizem mal lêem, senão como é que sabiam. O que eu quero dizer é que há porradas de mulheres que escrevem livros que as mulheres lêem. A Rita Ferro, a Margarida Rebelo Pinto, a esposa do Freitas do Amaral e uma que é a Bobone e mais uma porrada delas fartam-se de fazer papel. O que eu acho é que se funciona com mulheres também funciona com homens. Eu sei que os paneleiros e as mulheres é que lêem mais livros, por isso um gajo que quiser escrever um livro como os que as gajas lêem mas para os homens também não pode abusar demais, porque senão depois ninguém compra. Eu achava que escrever era difícil, mas até nem está a ser e acho que o meu livro até agora é bom. Um aqui que tem estudos, para escrever uma cagada dum folheto é só enciclopédias e dicionários e internet e o diabo a quatro e na volta o patrão não gosta, mas também com o patrão é sempre assim. As pessoas é que pensam que escrever é difícil mas é porque nunca experimentaram... Mas há livros que ninguém compra fora intelectuais, ou intelectuais da treta, mas nem me acredito que os lêem. Há livros que depois são feitos filmes, tipo a Firma ou o Cliente ou o Advogado do Diabo que eu não li os livros mas vi os filmes e o escritor é o mesmo mas como são todos sobre advogados, ele teve trabalho para um e ficou com a papa feita para os outros fora a história que é diferente. E o Stephen King igual, nem me acredito que tem trabalho fora a história, que é a vantagem do sobrenatural. Eu também não estou para me matar, que já chega ter que escrever e não gosto de sobrenatural nem de ficção científica (que mesmo assim tem-se que ter uma grande imaginação, lá isso também não vou negar). Li os Lusíadas, que não gostei mas lá que é bem escrito é. Os Maias do Eça de Queiroz gostei. E li mais uma catrefada deles (as Viagens na Minha Terra, e outro que era a Família Inglesa e mais outros que agora não me lembro, mas acho que o que gostei mais ainda é os Maias). E em inglês também li alguns. Portanto até acho que li mais livros que muita gente, só que não sou é nenhum intelectual. O dos folhetos é só palavras caras e vírgulas, tem a mania das vírgulas, mas se o patrão não espirra também não sou eu que vou dizer nada. Mas lá português sei (e inglês), só que não é assim que as pessoas falam, fora intelectuais e mesmo assim é cada uma que até dói, mas prontos.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Os dias iam passando, que é o que fazem os dias... O Miguel – o outro, o meu amigo (um aparte: na ficção, quase nunca há duas personagens com o mesmo nome, a menos que seja para tarde ou cedo gerar um engano rico em consequências dramáticas. Na vida real, por outro lado, o número de nomes distribuídos parece ridiculamente pequeno: uns bons 50% das raparigas que conheço chamam-se Ana; Miguéis, somos mais que as mães... olha, rimou) passou por minha casa e deixou-me, a conselho da irmã, médica (outra das raras não-Anas), uma caixa de comprimidos de valeriana (500mg) de comprovados efeitos ansiolíticos. Atirei-me a eles como um lobo; funcionavam. Comecei a dormir outra vez, a conseguir sair de casa sem ter de me apoiar em paredes, corrimões, sinais de trânsito e carros estacionados para não desmaiar. No Dia da Fruta, o Sr. Jorge achava-me melhor cara (mas continuava a deitar-me olhares furtivos para ter a certeza de que eu não lhe caía redondo no estabelecimento); no Minipreço, já não metia conversa com os clientes e as meninas da caixa; na rua, já não falava sozinho em voz alta (pelo menos era o que me parecia). A coisa compunha-se. Fui ao Maló para a primeira de muitas e financeiramente ruinosas consultas. Comportei-me exemplarmente. Fui trabalhar pela primeira vez em quase três semanas. O Sr. Hoffmann manifestou satisfação pela minha convalescença. Fiquei comovido, mas não chorei – nada mau. Nesse mesmo dia (8 de janeiro), decidi-me enfim a folhear a Internet, para poder pôr um nome na lápide do inimigo vencido. Podia ter-se tratado de uma de duas coisas, parecia: ou tinha tido uma crise de pânico ou sofria de doença bipolar. A segunda hipótese tinha um poor outcome, pelo menos sem tratamento médico pesado e doses cavalares de lítio. Optei pelo mal menor – ataques de pânico: what ifs, quase desmaios, palpitações... batia certo. A valeriana, no entanto, era afinal um placebo, e deixou imediatamente de produzir qualquer efeito; o passeio que tentei dar no dia seguinte (também a conselho da irmã do Miguel, que tinha posto a hipótese de que o problema fosse a chamada “seasonal affective disorder” – acrónimo “SAD” – e tinha sugerido banhos de Sol à beira do tejo) foi desastroso. Tinha passado do pânico ao terror. Os diques tinham cedido de vez, e a torrente dos medos tinha arrasado tudo o que se atravessara no seu caminho: depois de ter por milagre chegado ao Terreiro do Paço, precisei de apanhar um táxi para voltar a casa. A contemplação do rio (“beautiful but boring”, como dizia o outro) tinha gerado uma ideia fixa – a de como deveria ser bom estar morto. Paz e sossego. Nem medo, nem desejo. A Wikipedia chama ao fenómeno “suicidal ideation”: é uma bela expressão. No meu caso, era um regresso ao passado: entre os 18 e os 21 ou 22 anos, eu não tinha feito outra coisa; a diferença era que agora, tendo os meus pais em Lisboa, seria fácil, com um verdadeiro arsenal à minha disposição a 5o metros de casa (o meu pai coleccionou armas durante muito tempo, e tem-nas às dezenas). Meter uma bala na câmara, enfiar o cano na boca - a experiência é desagradável: o metal é frio, sabe a óleo e cria uma sensação semelhante à que se tem quando se toca com a língua no pólo de uma pilha, mas a fracção de segundo entre o premir do gatilho e o nada não deixa tempo para arrependimentos - nada de what ifs... Perfect. Quem decidisse ficar por cá que se amanhasse.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Graduellement, pendant que durait cette épreuve d’humiliation, je sentais mon amour-propre, déjà prêt à me quitter, s’estomper encore davantage, et puis me lâcher, m’abandonner tout à fait, pour ainsi dire officiellement. On a beau dire, c’est un moment bien agréable.
Gradualmente, enquanto durava aquela prova de humilhação, eu sentia o meu amor-próprio, já pronto a deixar-me, esbater-se ainda mais, e depois largar-me, abandonar-me por completo, digamos assim, oficialmente. Digam o que disserem, é um momento bem agradável.
Céline, Viagem ao Fim da Noite
É verdade, amigas e amigos. Pouco há que se compare à ablação – cirúrgica ou em resultado de traumatismo – do amor-próprio (agora diz-se auto-estima... também serve) para libertar the subject (Marachuk, John J.) das peias, estorvos e embaraços que as convenções sobre o que é ou não socialmente (e, se calhar, moralmente) aceitável lhe (ao subject) impunham. Mais umas semanas sob a chuva ácida do Freeport, e o Sócrates abandonará quaisquer pretensões de seriedade e transformar-se-á (em obediência ao imperativo Nietzschiano – porra, este custou!), naquilo que é – um rabetolas vaidoso e corrupto. A travessia do Rubicão pode fazer-se por muitos motivos, mas once you’re across, there’s no going back. Há um fim da noite à espera de todos aqueles que o desespero força a dar o primeiro passo (mas o ver nascer o Sol não é garantido a ninguém). A minha viagem, comecei-a há mês e meio – dia 16 de Dezembro to be precise – a arder em febre graças ao H3-qualquer-coisa que a minha Mãe tinha feito o favor de me trazer da Serra da Estrela. A partir daí, desabou tudo (ou seja, colapsou) – deixei de conseguir comer ou fazer ginástica, deixei de conseguir trabalhar, deixei de conseguir impedir-me de passar a meia-dúzia de horas diárias em que conseguia arrancar-me da cama sem a passar (a meia-dúzia) a limpar a casa e a mudar a roupa da cama como um maníaco. Deixei, em suma, de ser o Miguel generoso e enérgico que a vizinhança aprendeu nos últimos anos a admirar e (ouso dizê-lo), amar – o S. Miguel à Lapa – para me transformar num animal doente, ranhoso, suado, cambaleante, de termómetro permanentemente enfiado na boca, coberto de andrajos mal-cheirosos e incapaz de encadear de forma coerente duas ideias simples... Ah, a miséria que é o corpo, com as suas excreções, secreções, exsudações, exigências ridículas de sustento e de repouso, com a sua desavergonhada chantagem sobre a mente – trata de mim ou morre comigo. Um mês depois, o corpo estava mais ou menos reparado – o material tem sempre razão, e a medicina tem ainda limitações que envergonham o engenho humano, Marachuk, John J. died during the procedure... estava funcional, nada mal – mas o meu cérebro estava em plena tempestade, prestes a soçobrar definitivamente nos abismos da loucura. Falava sozinho permanentemente (ao ponto de ficar rouco); passava horas a fazer listas mentais dos medos que me paralisavam – aquilo que os psiquiataras chamam “what if scenarios”: vou a andar na rua... alguém me pede um cigarro... me pergunta como se vai para as Amoreiras... um carro swerves off the road e atropela-me (o que tinha acontecido umas semanas antes)... a fachada do prédio em demolição cai-me em cima... escorrego na puta da calçada portuguesa e dou de vez cabo do meu bum shoulder (o esquerdo)... fico atrás de uma rapariga bonita na fila do Pingo Doce e venho-me... Fico atrás de um gajo bonito na bicha do Minipreço e venho-me... Encontro faces from the past, gente que me conhece os segredos (too many secrets – como no sneakers – mau filme, good line), e sou desmascarado... Enfim, you get the idea... (continua, mas não hoje)
Gradualmente, enquanto durava aquela prova de humilhação, eu sentia o meu amor-próprio, já pronto a deixar-me, esbater-se ainda mais, e depois largar-me, abandonar-me por completo, digamos assim, oficialmente. Digam o que disserem, é um momento bem agradável.
Céline, Viagem ao Fim da Noite
É verdade, amigas e amigos. Pouco há que se compare à ablação – cirúrgica ou em resultado de traumatismo – do amor-próprio (agora diz-se auto-estima... também serve) para libertar the subject (Marachuk, John J.) das peias, estorvos e embaraços que as convenções sobre o que é ou não socialmente (e, se calhar, moralmente) aceitável lhe (ao subject) impunham. Mais umas semanas sob a chuva ácida do Freeport, e o Sócrates abandonará quaisquer pretensões de seriedade e transformar-se-á (em obediência ao imperativo Nietzschiano – porra, este custou!), naquilo que é – um rabetolas vaidoso e corrupto. A travessia do Rubicão pode fazer-se por muitos motivos, mas once you’re across, there’s no going back. Há um fim da noite à espera de todos aqueles que o desespero força a dar o primeiro passo (mas o ver nascer o Sol não é garantido a ninguém). A minha viagem, comecei-a há mês e meio – dia 16 de Dezembro to be precise – a arder em febre graças ao H3-qualquer-coisa que a minha Mãe tinha feito o favor de me trazer da Serra da Estrela. A partir daí, desabou tudo (ou seja, colapsou) – deixei de conseguir comer ou fazer ginástica, deixei de conseguir trabalhar, deixei de conseguir impedir-me de passar a meia-dúzia de horas diárias em que conseguia arrancar-me da cama sem a passar (a meia-dúzia) a limpar a casa e a mudar a roupa da cama como um maníaco. Deixei, em suma, de ser o Miguel generoso e enérgico que a vizinhança aprendeu nos últimos anos a admirar e (ouso dizê-lo), amar – o S. Miguel à Lapa – para me transformar num animal doente, ranhoso, suado, cambaleante, de termómetro permanentemente enfiado na boca, coberto de andrajos mal-cheirosos e incapaz de encadear de forma coerente duas ideias simples... Ah, a miséria que é o corpo, com as suas excreções, secreções, exsudações, exigências ridículas de sustento e de repouso, com a sua desavergonhada chantagem sobre a mente – trata de mim ou morre comigo. Um mês depois, o corpo estava mais ou menos reparado – o material tem sempre razão, e a medicina tem ainda limitações que envergonham o engenho humano, Marachuk, John J. died during the procedure... estava funcional, nada mal – mas o meu cérebro estava em plena tempestade, prestes a soçobrar definitivamente nos abismos da loucura. Falava sozinho permanentemente (ao ponto de ficar rouco); passava horas a fazer listas mentais dos medos que me paralisavam – aquilo que os psiquiataras chamam “what if scenarios”: vou a andar na rua... alguém me pede um cigarro... me pergunta como se vai para as Amoreiras... um carro swerves off the road e atropela-me (o que tinha acontecido umas semanas antes)... a fachada do prédio em demolição cai-me em cima... escorrego na puta da calçada portuguesa e dou de vez cabo do meu bum shoulder (o esquerdo)... fico atrás de uma rapariga bonita na fila do Pingo Doce e venho-me... Fico atrás de um gajo bonito na bicha do Minipreço e venho-me... Encontro faces from the past, gente que me conhece os segredos (too many secrets – como no sneakers – mau filme, good line), e sou desmascarado... Enfim, you get the idea... (continua, mas não hoje)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Is it safe?
Tinha passado mais de um ano desde que o Sr. Hoffmann definira o ‘concepte’ (pronunciar à portuguesa) para a colecção: o chá, o seu cerimonial, impregnados da espiritualidade, da serenidade, da sabedoria orientais, etc. Confúcio meets a Arte da Guerra (porque a coisa também metia piratas, grandes apreciadores de chazinho – bebido da melhor porcelana com o mindinho bem esticado). Eu tinha ‘pesquisado’ (folheara “O Ritual do Chá” e três ou cartapácios sobre porcelana) e escrito; o Egypton tinha desenhado as maquetes, sempre atento a que tivessem leitura e respirassem. O César fizera os ‘shootings’. Ao longo de muitas semanas, o Sr. Hoffmann fora recebendo os frutos do nosso trabalho; tinha reunido separadamente com cada um dos envolvidos; tinha convocado a ‘equipa’ para ‘briefings’, perorado longamente sobre assuntos elevados e decidido secamente, cortantemente, em questões de lana caprina, fiel à sua divisa – be practical. Tinha dado ordens e contra-ordens, mudado de opinião vezes sem conta; por fim, o dificílimo parto terminara: uma bela manhã, o Alexandre comunicou-nos que o ‘lançamento’ estava por horas. O dia passou, mas nada. Depois passou a semana. Concluí que nos céus, os astros não tinham assumido a configuração propícia; tinha passado o momento psicológico. Lançamento abortado. Meses depois, às cinco para as cinco da tarde de uma Quinta-feira, estava eu a arrumar a minha tralha para ir para casa, a Sandra (a secretária do Sr. Hoffmann) telefonou-me: ‘o patrão’ queria dar-me um briefing... Subi, com a morte na alma, até ao 5.º andar. Passei pela Sandra, que, entre duas baforadas e com um sorrisinho trocista a mostrar os dentes estragados, me disse que entrasse. Dei com o Sr. Hoffmann confortavelmente reclinado, de perna traçada, afastado da mesa onde se acotovelavam pilhas de livros sobre porcelana e louça da Companhia das Índias, catálogos de leilões, folhetos antigos e as peças da colecção; começou por me dizer que os meus textos estavam bons (mau sinal), e que se tratava apenas de fazer o ‘fine tuning’ (sinal péssimo). Um pouco mais de espiritualidade oriental, mais epopeia portuguesa no Oriente e encontro de mentalidades, culturas e religiões… E mais piratas. ‘Parra os pirratas, porrcelana erra urrô’. E toda a gente gosta de piratas – românticos, audaciosos. Eu repeti o que já lhe tinha dito muitas vezes – em matéria de pirataria , os portugueses (como os espanhóis) eram os patos... ‘O Miguel sabe isso, mas a maiorria das pêssoas náo’. Good point. Queria também a história de D. Catarina de Bragança, que introduzira o hábito do chá em Inglaterra, e mais passado glorioso e aventureiro das quinas... Talvez Fernão Mendes Pinto (‘Pode você lêarr a “Perregrinaçáo”, e encontrrarr as referrências à pôrrcelana?’)… E, já agora, ‘en filigrane’, sempre en filigrane – a dimensão material e de investimento... ‘Náo é prrêcise reescrevêarr os tecsts, pôorque os tecsts estáo bons... É só um pôcadinhe de fine tuning’. Reescrevi os textos. O Egypton passou a semana seguinte a fazer novas maquetes (fundos em azul e branco, em azul celeste, em branco de porcelana com estampas chinesas, sem estampas chinesas, em azul celeste com caracteres chineses sortidos... tudo com ainda mais leitura, tudo a respirar como nunca). O César esmerou-se numa composição que misturava sedas, paus de incenso, um Buda dourado e obeso e um par de sabres de abordagem e de pistolas de pederneira comprados numa loja chinesa. Nessa sexta-feira, enfim, o Sr. Hoffmann desceu ao nosso andar. A porta do departamento abriu-se com o esperado vigor, o ‘Bo-Asssh’ foi seguido de um esfregar de mãos impaciente. O Egypton, o Alexandre e eu formámos um semicírculo em volta do estirador onde estava exposto o resultado de tanto fine tuning. O Sr. Hoffmann sentou-se na cadeira do Egypton e iniciou o exame. Silêncio. Os minutos foram passando. De gorda lapiseira Montblanc em punho, dando estalidos com a língua, o Sr. Hoffmann ia rabiscando maquete após maquete, de sobrancelhas hasteadas até ao meio da testa. O cheiro a alho, apesar da janela aberta, tinha-se tornado intolerável. Por fim, o Sr. Hoffmann parou. Guardou a lapiseira, tirou os óculos (que lhe tinham deslizado até à ponta do nariz), depô-los solenemente sobre o tampo do estirador, endireitou-se na cadeira e inspirou profundamente. ‘Hum. O trrábalhe está muito bom… É o concepte… O concepte é que náo é... (estalou os dedos, os seus olhos percorreram o auditório, esquadrinharam o tecto… procurava o ‘mot juste' que definisse aquilo que o conceito não era...)... ‘náo é... (sing it!) ‘sexy’.
Telephone and rubber orchestra
I call, no-one answers... telephone and rubber band, dos Penguin Cafe Orchestra (com a ajuda do Fritz Lang). Vi-os (No Tivoli? No S. Luís?). O Simon Jeffes morreu uma meia-dúzia de anos mais tarde, e vieram-me lágrimas aos olhos. Durante boa parte do concerto, uma lata de coca-cola dançou em cima dum piano. Some things you never forget, no matter how drunk you are.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
E esta é para quem a apanhar: os Big Black em fogo. O Tipo magrinho (lean, mean, killing machine) é o notório Steve Albini, cozinheiro de grande mérito (true story), amigalhaço da Polly Jean, polemista consumado, produtor de quase tudo o que (da PJ ao In Utero dos Nirvana, aos Palace ou aos Pixies - olha, os Pichis), o Rock so-called independente de jeito (e o country, e o Folk) deu ao mundo nos últimos vinte anos. P.S.: He ain't skinny anymore, but he's still mean as hell (e o "Songs About Fucking" ainda arranca a tinta das paredes cá do tugúrio).
Mais um para a Clara
You Snake, you crawl between my legs... Pj Harvey em brasa, e eu com ela. Suspiro.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Como disse?
‘Mi-gué-el’... ‘Sim, Sr. Hoffmann’.... Ah, puta de vida. Quatro e meia, e, depois do sacramental ‘Bo-AAASSHHH’ (as in ‘boas tardes’, expressão transbordante de rústica portugalidade) que se tinha seguido à enérgica entrada no, chamemos-lhe assim, departamento de marketing (eu, português, autor dos dizeres, o Alexandre, francês, motivador encartado de equipas multidisciplinares e multinacionais, a Mariola – polaca, faz os bonecos – e o “SENHOR ENGENHEIRO”, façam favor, arqueólogo numismático, sigilógrafo, sobrevivente – até ver – de cancro da próstata, escarrador lusitaníssimo de craveira olímpica), o Sr. Hoffmann tinha tomado assento à mesinha do canto, e espiolhado durante uns minutos a minha súmula da crise económica em curso e a minha antevisão das cotações de valores em ouro físico (as opposed to ouro espiritual), com particular ênfase em moedas de ouro (palavra, ouro, que o Sr. Hoffmann se orgulha de pronunciar “Urrô”). ‘Sim, Sr. Hoffmann?’ disse eu, já em pleno voo para junto dele... ‘O Mi-guel diz aqui ‘a rêdução que se vem a obserrvarr nas tirragens das emissões’... Não pode sêarr ‘quê vem à obserrvarr-se’?... ‘Por acaso, não só pode, como deve... Bem caçada... E assim evita-se o innuendo do ‘se vem’... Ele estava sentado, eu em pé... Levantou para mim os olhinhos piscos, arregaçando bem alto as sobrancelhas, calado. Não tinha percebido... ‘Evita-se o verbo ‘vir-se’... A implicação de voyeurismo de ‘vir-se a observar’... A expressão não mudou. Não percebia em Português, não percebia em Francês. Nunca tinha seguido o cherne, peixe recalcado. Mas gostou de que eu tivesse tão prontamente reconhecido a sua superior maîtrise do Português... Palmas para mim.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
O salário do medo
Os minutos passavam, e o Sr. Hoffmann continuava a falar com a Adelaide e o Mário; alguma coisa 'tava complicada', dizia ela; o Mário falseteou um 'Complicadíssima'. Santo adjectivo, complicada era o que a coisa realmente estava. Cinco e cinco da tarde, e aquele trio entre mim e a porta, entre mim e a liberdade... Mas o que quer que estivesse complicado não era, diria Hoffmann, a big deal: a Adelaide entrecortava gargalhadas com punhadas formidáveis nas costas de uma cadeira; o Mário, em pontas sobre os ténis Nike cor-de-rosa, com os jeans brancos enfiados pelo rabo acima até ao cóccix, cacarejava em êxtase. Mas a alegria geral não alterava o facto de entre mim e a porta se interpor o homem mais perigoso do planeta, Hoffmann o Huno, Cérbero (e cérebro) do meu inferno profissional, devorador impenitente de alho e de almas. Ah, a energia do desespero... Comecei a deslizar em direcção à porta como um ninja, a escorrendo como uma gota de mercúrio. Afinal, I am Snake. Pelo canto do olho, podia ver que o trio se mantinha coeso, que nenhuma cabeça se virara, nenhum olho encarnado (I spy with my little red eye) detectara perifericamente a subtil alteração da composição de luz e sombra (ena, poesia!) do escritório... Até o ‘até amanhã’ que lancei no momento em que pousei a mão na maçaneta me pareceu soar natural, apesar do nó que sentia na garganta... Era o momento crítico...’Miguel... (tem de ser ouvido, o "Miguel" do Hoffmann – é um Yodel tirolês que flutua no ar como um papagaio de papel... Mi-gué-el). Pode você êsperrarr, pôr favôr?’. Claro que espero por si, Sr. Hoffmann... Afinal, o que é que me espera a mim no meu covil? Família e amigos? A Zon TV Cabo? O jantar? Em três passos, o huno estava diante de mim. ‘Como é que você dirria: ‘eu estou ligado ao meu cão’, sem dizer ‘ligado’?... ‘Je suis attaché à mon chien, eu êstu ... (e esbracejava, tentando descrever o quê? Afecto? Amor? O Sr. Hoffmann, attaché... Ó Deus!...). ‘Les allemands sont très attachés à leur Mark... Ôs almáais estão muito... ?’ E calou-se. ‘apegados’, respondi eu. ‘Os alemães são muito apegados ao seu Marco’. ‘Apêgados?’ ‘Sim’. ‘Cerrteza? Apêgados? Attachés?’. Sim... ‘Bom, está cerrt. Muit obrrigado. Até amanhá’. Fizemos um tango à porta, que eu tinha aberto: ‘pôr fávôrr’, disse ele; ‘Ó Sr. Hoffmann’, respondi eu. Ele lá saiu, corredor fora. Freedom!
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